BLOG PALAVRAS SÃO FLECHAS

  • Tacun Lecy

Sutilezas do olhar


Fotografia da Ìyálaxé Mariá Kecy acompanhada de texto sobre interpretações das religiões de matrizes africanas.
A Ọ̀ṣun da Casa de Ṣàngó • Terreiro Raiz de Ayrá | © 2012 Tacun Lecy. Todos os direitos reservados.

Longe de mim querer traçar estereótipos para as pessoas, buscando, através dos seus perfis, estabelecer relações com os Orixás. Na minha opinião, assim como o paralelismo religioso, essas analogias não passam de uma folclorização das religiões de matrizes africanas, assim como foi com as outras tradições culturais afro-brasileiras.


Não se pode criar regras para os candomblés, tão pouco definir um único caminho. Em um espaço onde as energias se manifestam, o que parece quente, pode ser frio; a folha de um canto, tem outra função num outro; o Ijexá de Oxum, tem um outro pé de dança com Ogum... Tudo está ali, bem próximo de todos. Porém, cabe aos iniciados a responsabilidade de entender as dinâmicas desses fluxos.


Muitas vezes, os não-iniciados tentam definir parâmetros para contar o que viu nos terreiros. Isso não é inválido, tão pouco ilegal. Porém, será sempre um olhar de fora, pautado naquilo que presenciaram nesses momentos, mas que desconhecem nos seus fundamentos.


O povo de santo, ao longo da história dessa tradição religiosa no Brasil, em especial na Bahia, viu um mundo de gente adentrar as portas das suas Casas, encantadas com as manifestações do povo preto, querendo experimentar a sua convivência com o sagrado. Sabedores de tudo, os ancestrais viam as sutilezas dos pedidos para que contassem um pouco mais do que era visto nos barracões e, estrategicamente, produziram formas de distrair esse olhar de fora, para que o nosso Axé continuasse resguardado.


Existem distâncias muito grandes entre o quando e o porquê dessas histórias terem sido criadas, as formas como foram contadas, as interpretações de quem as ouviu e as intenções de quem as reproduziu. E aí eu desafio alguém a traçar o caminho da verdade e do entendimento.


O fato é que a história ainda é a mesma. O olhar de fora continua querendo entrar. E ele está cada vez mais intelectualizado. O que mudou mesmo foi o tempo e, consequentemente, as narrativas. Mas isso porque tem gente que pensa que está lá dentro, mas, na verdade, continua do lado de fora. E eu, nesse dentro- fora, fora-dentro, fico de cá, só observando.

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A Ọ̀ṣun da Casa de Ṣàngó • Ìyálaṣẹ́ Mariá Kecy • Terreiro Raiz de Ayrá

São Félix, Bahia, Brasil • 2012

© Tacun Lecy. Todos os direitos reservados.

www.tacunlecy.com

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