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O brilho de Ialê


Ialê e Gabriela na Festa de Yemanjá, fotografia de Tacun Lecy.
Ialê e Gabriela • Festa de Yemanjá | © 2023 Tacun Lecy. Todos os direitos reservados.

Já faz um bom tempo que eu não sinto tesão para fotografar a Festa de Yemanjá. Na verdade, eu me sinto meio envergonhado de ser fotógrafo no dia mais tradicional que a Bahia popularizou para se homenagear as Águas.


Em meio ao emaranhado das tradições que se espalham pelas águas, areias e ruas do Rio Vermelho, onde o sagrado e o folclórico se confundem aos olhos de quem não sabe decifrar os códigos, lá estão os fotógrafos e suas câmeras, prontos para invadir os ritos e quebrar as conexões de quem para lá foi com seus propósitos particulares e religiosos... Tudo em busca da captura perfeita para os seus portfólios. Por esse motivo, nos últimos anos os meus rolês por lá era mesmo para me misturar com o povo, fazer minha farra e me divertir em meio àquela folia gostosa que só a Bahia consegue produzir.


Este ano, porém, rolou algo diferente e senti que deveria levar um equipamento para a festa. Isso porque fui convidado a participar da exposição “Festa de Iemanjá – 100 Anos” e, logo cedo, aconteceu um encontro promovido pelo Coletivo Aéreo (grupo responsável pela produção desse projeto) com os fotógrafos que tiveram suas obras expostas na mostra. Enquanto eu me arrumava para sair de casa, brotou um pensamento de que eu poderia encontrar algo interessante durante a festa. Daí ajeitei a câmera e segui meu caminho.


Ao chegar no Rio Vermelho, me joguei no fluxo do movimento da da tradição, tentando perceber as coisas que me interessavam como pesquisador da cultura afro-brasileira, porém, nada me fez tirar o equipamento da mochila e, então, fui me encontrar com o grupo. Após comemorarmos a realização da exposição e de uma conversa interessante sobre a fotografia no circuito da festa, saímos para comer algo. Dobramos a esquina e entramos em uma rua em frente à colônia de pescadores do Rio Vermelho.


Foi exatamente nesse momento que me deparei com duas mulheres lindas, descendo em direção ao local onde os presentes eram arrumados para Yemanjá. Eram a Ialê Silva e a Gabriela Sacramento... Estavam perfeitamente vestidas com roupas de mulheres de Axé e um brilho forte que explodia delas irradiava todo o lugar. Não tive como me conter e bati paó[1] para elas... Toda aquela cena produzida pela parceria delas, na rua, me fez sentir uma leveza naquele encontro. Nossos olhares se conectaram e naturalmente iniciamos um papo gostoso no qual lembrei de algo que minha Mãe de Santo sempre comenta sobre as vestimentas das mulheres de candomblé e como isso ficou folclorizado por pessoas que, muitas vezes, nem são do Axé (mas essa conversa é para depois).


Elas disseram que eram filhas de santo da Casa de Oxumarê, um terreiro de candomblé cujo Babalorixá é amigo da minha Ìyálaxé, o que fez o papo render mais um pouco... Até então, nunca tínhamos nos encontrado para uma conversa, no entanto parecia que já nos conhecíamos há muito tempo. Foi um encontro bonito e leve e toda a energia daquele momento me fez sentir a vontade de fotografá-las. E fotografei! Logo depois, elas pediram para que fizéssemos uma selfie, pois queriam guardar a lembrança do encontro tendo a minha imagem na foto, também. Fizemos!


Sorrimos, nos abraçamos, nos desejamos luz e seguimos nossos caminhos: elas para encontrar o povo do Axé delas... Eu para encontrar o grupo que estava na fila da padaria. Comentei o encontro com o pessoal e, para mim, a ida ao Rio Vermelho já tinha valido a pena.


Na manhã do dia seguinte, recebi uma mensagem com a notícia do falecimento da Ialê. A menina sorridente e cheia de vida, que preencheu o meu dia com a mais pura leveza de alegria, havia feito sua passagem... E os mesmos ventos de Oyá (sua Mãe) que a conduzia no Aiyê a transportaram para o Orum e, agora, ela se tornou uma ancestral.


É difícil lidar com o choque de sentimentos que esses acontecimentos causam na gente. Mas é preciso entendermos que a linha da vida tem duas faces, que caminham lado a lado... E o mesmo sopro que nos traz, nos leva... Para nós, que ficamos para mais umas temporadas nesse mundo, é importante procurarmos viver plenamente, aproveitando todas as dádivas que nos são concebidas e agradecermos pelas oportunidades que a vida nos oferece para estarmos felizes.


Tenho a completa certeza de que a Ialê foi uma dessas dádivas! E agradeço a Olorum pelo encontro e pela alegria que ela me ofereceu naquele rápido encontro, o que me proporcionou a honra de ter feito o último registro da sua linda passagem nesse mundo.


Ao escrever esse texto, sinto em meu corpo a sensação do momento em que nos encontramos no Rio Vermelho... Imagino que para a família e amigos mais próximos da Ialê, essa percepção seja ainda mais potente... Por tudo isso, sei que de onde estiver, Ialê continuará brilhando e nos alegrando com as suas lembranças.


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[1] Sequência ritmada de palmas utilizada nos rituais de candomblé, que tem o objetivo de saudar os Orixás.


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TEXTO

O brilho de Ialê

Autor: Tacun Lecy

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FOTOGRAFIA

Ialê e Gabriela • Festa de Yemanjá

Salvador, Bahia, Brasil • 2023

© Tacun Lecy. Todos os direitos reservados.

www.tacunlecy.com

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